A série mal começou aqui no Brasil. Na verdade, foi ao ar ontem, e qualquer um pode checar na internet e ver que a velha prática “alternativa” promoveu seu alcance até mesmo aos mortais que vivem de um salário que não paga uma TV a cabo ou satélite, mas patrocina um computador com uma rede para baixar o que se queira, ou então a eterna roda da qual fazem parte os camelôs que vendem filmes e todo tipo de material que se procure.
Seja de uma ou de outra fonte, o fato é que Glee e as músicas que ele inclui em seu repertório são um sucesso de um público de idade variada. E por que nos espantamos com isso? Porque este é mais um clichê repetitivo, em certa medida, de “High School Musical“, que pega carona nos filmes em que Zach Efron e as menininhas bonitinhas estrelam e performam coreografias.
Há, porém, outros elementos que de tão diferentes dos “winners“ americanos chegam a ser comuns e clichelizados — ao contrário. Trata-se, para começo de conversa, do seguinte argumento: um professor de espanhol em crise com sua vida resolve resgatar a tradição do grupo de canto da escola onde leciona, mas os únicos que se interessam são justamente aqueles que não se encaixam no perfil de “winner“: uma menina gorda e negra, um mauricinho gay hypado na moda, uma judia gerada por barriga de aluguel e criada por dois pais gays, uma oriental com tendências emos e que gagueja, um cadeirante declaradamente CDF (ou “nerd“, na linguagem dos americanos) e um bonitão e popular jogador de futebol americano na famosa posição de ”quarterback“, que se sente deslocado e em crise com os valores com que conviveu a vida toda — daí a sua participação no grupo. De início, engatilha-se o paradoxo do politicamente correto da diversidade, em que se procura representar todos os grupos dos “outsiders“, mas que nem por isso deixam de ser os diferentes e que não se encaixam (e por isso mesmo as etiquetas de descrição acima são propositalmente convenientes). Trata-se de inverter a mão da estrada de sucesso atual dos filmes, e fazer dos perdedores os heróis do momento, relegando a segundo plano as tradicionais loiras peitudas, líderes de torcida, os grandes diretores e professores populares, e os machões truculentos que tradicionalmente praticam “bullying” por diversão.
Obviamente, do ponto de vista mercadológico, trata-se de um negócio e tanto: não só se recuperam antigos sucessos que estão “bombando” no iTunes — porque lá nos Estados Unidos as músicas são compradas, e não baixadas ‘alternativamente’ –, como é possível ver à venda, no site da Fox, as partituras para coral das músicas cantadas nos episódios. Cria-se nova moda, direciona-se o mainstream da música para o retorno aos anos 1980 e 1990, e vende-se muito material por conta disso.
O fenômeno social é bem mais interessante de olhar, porém. Afinal, é só um seriado originalmente direcionado a adolescentes, cujas personagens são planas e cujo enredo é frouxo e traz momentos de constragimento, momentos de graça, pinceladas de humor e grande dose de absurdo, se considerarmos que às vezes algumas cenas são levadas ao extremo, como é o caso do mocinho que se descobre muito bonzinho e por isso liberta da prisão do toilette público o garoto cadeirante, vitimizado pelos colegas do futebol.
No entanto, as personagens apresentam algumas questões a se pensar. A primeira delas é a seguinte: por quê um professor de espanhol, e não de francês, que também é bastante ensinado nas escolas americanas? Embora se trate da representação de uma cidadezinha, ao colocar o professor de espanhol no comando o roteiro realiza, no plano ficcional, a inversão da importância da língua de uma grande parcela de imigrantes que, como anuncia a música-tema* do episódio piloto, são os “estranhos” que “esperam nas sombras” e “vivem apenas pela busca de emoção”. Dizendo de forma diferente, significa apresentar uma parte, um indivíduo por toda uma parcela da sociedade. As outras foram cobertas pelos outros “outsiders“, que são o exemplo mais óbvio da inversão dos papéis.
O espectador só não pode e não deve se deixar levar por esta inversão, porque ela é somente isso: uma inversão de papéis, mas jamais uma subversão dos valores norte-americanos. À primeira vista, parece que esta será a vez dos perdedores brilharem na ribalta, mas a coisa não é bem assim. Em uma época de grande crise mundial, em decorrência da crise dos Estados Unidos, o que mais se precisa, além de manter a roda do capitalismo rodando no seu nível mais básico, que é o da compra e o da venda de todo tipo de produto e da própria reprodutibilidade, é manter a fé do povo nos valores que os Pais Fundadores — sim, aquelas figuras para lá de antigas nos nossos livros de história — na união, na força que cada um agrega no todo para que haja a superação das dificuldades, sejam elas de ordem pessoal, social, econômica ou política. Não é à toa que “High School Musical“, “American Idol” (note-se que tem de carregar o adjetivo “American“, porque se não for assim, não dá para ser “Idol“) e tantos programas de TV oferecem o mesmo prato principal que tem sido servido há séculos: o espetáculo popular e barato às massas. Porque, no final das contas, em time que está ganhando não se mexe, como bem sabiam os romanos.
Em Glee, toda a produção é eficaz e detalhadamente pensada para emocionar o professor que pensa em se demitir da escola que ama para seguir a “sexy” carreira de contador porque precisa sustentar a muher e o filho que está por vir: das personagens clichelizadas à discreta e paradoxalmente berrante bandeira americana representada na camiseta vermelha, no jeans azul e nos tênis all star pretos dos alunos do grupo, tudo é feito para fazer rir e emocionar. O enredo pode ser frouxo, mas a produção musical é impecável, o figurino é muito cuidadoso e a escolha das canções é perfeita. Estamos falando, afinal de contas, de “Glee” — aquilo que é definido pelo dicionário online Webster como 1) um sentimento de extrema alegria, capaz de emocionar; e 2) tipo de música. Por isso o título do seriado e a letra da canção-tema apelam escancaradamente para que não paremos — nem o professor, nem os alunos, nem nós, espectadores — de acreditar nesse poder advogado pelo povo norte-americano, que em sua Declaração de Independência deixa muito claro que só a Deus obedecerá.
Depois disso, só nos resta reconhecer que Glee é eficaz naquilo que se propõe, e que não é pelo fato de ser politicamente hegemônico que ele deixa de conquistar plateias de várias idades, gostos e nacionalidades, neste fenômeno que fez Hollywood até mesmo resgatar “Fama” de seus arquivos para reeditá-lo nessa roupagem aparentemente nova e essencialmente tão, tão velha quanto o é a sociedade tal como a estudamos.

O elenco de Glee
*Don’t Stop Believing — Journey (1981), aqui apresentada pelo elenco do seriado.